Páginas

Mostrando postagens com marcador Para entender Cuba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Para entender Cuba. Mostrar todas as postagens

Fidel Castro, o Quixote que deu certo

Uma bela síntese da figura histórica e revolucionária do Comandante Fidel Castro, texto de Roberto Amaral.

"Fidel, com seus erros e seus méritos, abraçou o império da realidade objetiva e entrou para a história
Roberto Amaral
O ancião alquebrado que acaba de nos deixar venceu todos os adversários com os quais se defrontou, e sempre em condições extremamente desvantajosas, e nenhum deles era moinho de vento, pois todos inimigos ferocíssimos, riquíssimos, e o mais perigoso de todos, o império norte-americano, armado com modernos escudos, lanças e mesmo garras e dentes atômicos.

Fidel Castro, que o processo histórico transformaria no principal líder latino-americano do século XX, líder libertário da relevância de Ho Chi Minh e Nelson Mandela, foi, para os oprimidos de todos os continentes, para o grande universo dos subdesenvolvidos e particularmente para nós, latino-americanos, uma luz, uma esperança, animando vontades e ajudando a realizar sonhos de libertação nacional.


Aquele bastião de pé dizia que a luta continuava.

Com sua partida, encerra-se a saga dos heróis cervantinos da Revolução Cubana, Fidel, Camilo Cienfuegos – que não conheceu o poder – e Ernesto ‘Che’ Guevara, que desprezou o poder e o repouso do guerreiro: deixou saudade e saiu de cena admirado pelo que não conseguiu fazer; sua imagem é icone de amigos e adversários, multiplicada pelo sistema que não conseguiu abalar.

Fidel, com seus erros e seus méritos, foi o amálgama da tríade, pois era o sonho sem limites, era a mística revolucionária, mas era igualmente a práxis consciente de quem, sem renunciar ao sonho e mesmo à aventura, dá os braços ao império da realidade objetiva.

A partir de Cuba – ilha irrelevante do ponto de vista econômico, com seus 11 milhões de habitantes e 109.884 km2  de extensão (menor do que o Ceará) em face de gigantes como o Brasil e os EUA –, Fidel cumpriu, por décadas, com imensos sacrifícios para seu povo, o papel de esteio da luta anticolonialista e anti-imperialista, indispensável para a construção de um mundo socialmente menos injusto. Em quase toda a África os soldados cubanos estiveram lutando – Angola é o exemplo mais relevante – em defesa dos processos de libertação nacional.

Como poucos líderes revolucionários, Fidel sobreviveu à sua obra e morreu como vencedor, e, como todos os vitoriosos longevos pagaria alto preço no julgamento de seus contemporâneos. Ainda aguarda o crivo da história.

Venceu antes de tudo a ditadura luciferina de Fulgencio Batista, o criminoso desvairado, sem limites, encerrando décadas de assassinatos, torturas e toda sorte de barbárie. Venceu reiteradas vezes o poderosíssimo império americano, distante apenas 150 quilômetros de sua costa: venceu o general Dwight Eisenhower, o primeiro presidente a decretar embargo comercial contra Cuba (1960), venceu John F. Kennedy e a invasão da Baía dos Porcos (1961), venceu Richard Nixon e 634 tentativas de assassinato comandadas pela CIA (O Globo, 27/11/2016); venceu todos os presidentes americanos contemporâneos a ele – todos seus adversários e todos tentando a destruição do projeto cubano de regime socialista, bem como tentando sua eliminação física.

Cuba e Fidel, a partir de certo momento uma unidade, sobreviveram à queda do Muro de Berlim, à debacle da União Soviética e à transição da China para o capitalismo de Estado. Sobreviveram  à Guerra Fria e à chantagem do conflito atômico. Sobreviveram ao cerco das ditaduras latino-americanas instaladas em nosso continente pelos Estados Unidos nos anos 1960-1970.

Cuba, enfim, superou mais de 50 anos de cerco político-econômico (em 1962 os americanos decretam embargo econômico total à Ilha), diplomático e militar da maior potência do mundo, sobreviveu à crise do socialismo real e à globalização. Derrotou as oligarquias, os insurgentes, os sabotadores internos e externos.

Ao funeral de Fidel – liderança que os cubanos dividem com parcelas significativas das grandes massas de nossos países –, comparecerá um povo respeitado, soberano e solidário, orgulhoso de sua trajetória e consciente de seu papel na história. Este, seu legado.

Com a exceção da revolução de 1917, e ao lado certamente da Guerra do Vietnã, nenhum outro processo social terá influenciado tanto o mundo, e principalmente nosso continente, quanto a revolução cubana e nenhum líder exerceu tanto fascínio entre as multidões de jovens esperançosos quanto Fidel.

Nenhum líder permaneceu no pódio por tanto tempo, e não conheço outra identificação tão profunda, tão íntima entre o líder e sua gente, entre a história do líder e a história de seu país. E muito raramente um líder terá sido tão sujeito da história, artesão dos fatos, cinzelando as circunstâncias.

A Cuba de hoje resolveu problemas que ainda se agravam em países relativamente ricos, como o nosso: erradicou a miséria e o analfabetismo, universalizou o acesso à saúde de qualidade (apontado ao mundo pela OMS como exemplo a ser seguido) e à educação. A Cuba que Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto “Che” Guevara libertaram no réveillon de 1958-1959, porém, era, naquele então, apenas o maior prostíbulo do Caribe, balneário de gângsters controlado pela máfia e pelo tráfico, país sem economia própria, sem indústria, limitado à monocultura do açúcar.

Ícone da luta anti-imperialista, ícone da revolução em nosso continente, e de uma revolução socialista, símbolo da preeminência da vontade política sobrelevando às teorizações, Fidel Castro, líder de uma revolução impossível que no entanto se fez real, foi o grande nome de minha geração que em 1960 ingressava na universidade.

Cuba era a nossa Dulcineia, a ínsula que o sonho do cavaleiro nos prometia. Cuba era uma esperança, sua resistência, sua sobrevivência valiam como o certificado de que eram possíveis e viáveis todos os nossos sonhos de jovens socialistas que logo seriam chamados para o enfrentamento da ditadura militar instalada em 1964.

Visitei Cuba por diversas vezes, em tempo de bonança e em tempos de “período especial” – assim chamado aquele que se sucedeu ao suicídio da União Soviética. Visitei Cuba como dirigente político, quando, com Jamil Haddad, estava incumbido da tarefa de reorganizar o Partido Socialista Brasileiro, que consignava em seu programa o compromisso com a defesa da Revolução Cubana.

Foram muitas as delegações trocadas entre o PSB – então um partido de esquerda – e o Partido Comunista Cubano. Conheci e convivi com seus principais líderes. Em algumas oportunidades pude viajar por suas províncias, conversar com sua gente, visitar suas escolas e universidades, seus centros cívicos, conviver com seus estudantes e intelectuais, dialogar, debater, discutir. Testemunhei suas dificuldades e pude acompanhar a dedicação majoritária em torno do grande projeto.

As circunstâncias me ensejaram vários encontros – longas conversas, sem hora para começar e sem hora para terminar – com o “Comandante”, em Brasília, em São Paulo e principalmente em Havana. No primeiro desses encontros, Fidel disputou com o senador Jamil Haddad, então presidente do PSB, quem mais conhecia o programa siderúrgico brasileiro.

Visitei a Ilha outras vezes para participar de congressos e seminários diversos. Na última vez que estivemos juntos, eu integrava uma delegação de escritores e políticos brasileiros que comparecia ao um congresso latino-americano. Nosso bate-papo começou por volta das 22h e só terminou em torno das 4-5 horas da manhã. Nesse encontro, Fidel teve a oportunidade de discorrer, para uma plateia espantada, sobre o quadro político de cada um de nossos países. E ele, só ele assim, grande parte do tempo falando de pé.

Sem maiores ilusões quanto à supremacia da práxis, nos chamava a atenção para os dias vindouros, difíceis, dizia ele para nossa surpresa coletiva, a reclamar de todos, militantes de esquerda, muita reflexão, muita produção teórica. Muita recuperação das lições da História. Aquele homem, por excelência homem de ação e chefe de Estado nos ditava a lição de Engels: “Não poderemos prever o futuro senão quando tivermos compreendido o passado”.

Permito-me reproduzir aqui algumas palavras do prefácio que tive a honra e o prazer de escrever para o belo livro de Cláudia Furiati (Fidel Castro – Uma biografia consentida):

“Montado no Rocinante que as circunstâncias lhe permitiram, à frente de pequeno exército de desvairados, vestido apenas na armadura de uma paixão desenfreada por sua Dulcineia, Fidel é um Quixote moderno, o cavaleiro da triste figura, apólogo da alma ocidental que deu certo, derrotando não moinhos de vento, mas dragões verdadeiros, os quis, porém, vencidos, renascem para a luta, e o líder cubano, tanto quanto o herói cervantino, não conhece a paz, mas sua Dulcineia permanece preservada. Não economizou sonhos, dores e meios”."

Livro: Cuba Sem Bloqueio

Cuba sem bloqueio
“Cuba Sem Bloqueio: a revolução cubana e seu futuro, sem as manipulações da mídia dominante”, de Hideyo Saito e Antonio Gabriel Haddad, é um livro imperdível para quem deseja entender Cuba, que vale a pena ser lido mesmo por aqueles que pretendem ir a Cuba apenas pelo aspecto turístico da viagem. Tendo informações não deturpadas - como as veiculadas pela mídia dominante - aproveitaram muito mais a estadia nesse país e até as belezas naturais serão vistas com outros olhos - o prazer da viagem será mais intenso e saberá ver e valorizar coisas que sem essas informações certamente passarão desapercebidas.

Transcrevo abaixo uma sinopse do livro conforme publicado na site da editora:
 "Como anuncia o título, trata-se de um trabalho que mostra a realidade cubana atual de forma clara e direta, sem as mistificações criadas pelos meios de comunicação dominantes.
Qualquer fato contrário à revolução cubana merece destaque nessa imprensa, como exemplifica o caso de um ato do grupo dissidente Damas de Branco, que reuniu dez pessoas em Havana e foi chamada de capa de O Estado de S. Paulo. Qual outra manifestação desse tamanho mereceria tal tratamento? Contrariamente, qualquer notícia favorável à revolução é ignorada, como quando a revista Veja entrevistou o pedagogo e economista Martin Carnoy, que estava no Brasil para lançar o livro “A vantagem acadêmica de Cuba: por que seus alunos vão melhor na escola”, e conseguiu não falar no ensino cubano.
O mesmo aconteceu quando a Unesco divulgou os resultados das duas pesquisas comparativas sobre o ensino na América Latina, uma de 1997 e outra de 2007: a grande imprensa brasileira abriu um bom espaço para falar sobre o desempenho do Brasil, mas não mencionou que os estudantes cubanos ficaram em primeiro lugar em ambas.
Exemplos como esses se multiplicam. Por isso, o título do livro alude a uma Cuba “sem bloqueio”, referindo-se, neste caso, ao bloqueio de informação correta sobre o país, erguido pelos oligopólios da comunicação. É devido a esse bloqueio que a realidade de Cuba continua pouco conhecida entre nós.
Para furar esse “bloqueio informativo”, os autores pesquisaram tanto em fontes cubanas como estrangeiras. (...)
Definitivamente, “Cuba Sem Bloqueio” não fala sobre um paraíso terrestre. Mas levanta em alto e bom som a questão: “Quantos países capitalistas exibem uma sociedade razoavelmente harmônica, sem concentração de riqueza, sem miséria, sem fome, sem analfabetismo, sem violência social e sem crianças abandonadas”, como a de Cuba? Uma possível resposta está em sua introdução, quando cita Noam Chomsky: “O que é intolerável para essa mídia (‘o verdadeiro crime de Cuba’) são os êxitos cubanos, que podem servir de exemplo para povos de países subdesenvolvidos”.
Para mais informações e/ou adquirir o livro visite o site da Radical Livros

Livro: Revolução Cubana e Revolução Brasileira

Revolução Cubana e Revolução Brasileira, Jamil Almansur Haddad
Jamil Almansur Haddad
Jamil Almansur
Obra do crítico, ensaísta, historiador, teatrólogo, antologista, tradutor, médico e poeta Jamil Almansur Haddad (13 de outubro de 1914 - 4 de maio de 1988). 
Após uma visita à Cuba em janeiro de 1961, Jamil traça, neste livro, um estudo comparativo entre a realidade cubana pré-revolução e a realidade brasileira dos anos 1960. Em 314 páginas em que mescla estatísticas econômico-sociais; poesias; e citações de autores - Rui Barbosa, Gilberto Freire, Celso Furtado, Euclides da Cunha, Alberto Bayo, Che, Fidel, dentre outros, é apresentado um quadro geral de Cuba pré e pós Revolução, sempre fazendo a correlação com a situação brasileira. 
Trezentos e quatorze páginas de análises; uma vibrante defesa da Reforma Agrária e da Revolução e uma conclusão - primado da síntese política: apenas 2 linhas - transcrevo:
"Ou o Brasil se socializa ou o Brasil desaparece. Isto, enquanto os Estados Unidos não formularem o mesmo dilema".
Plano Geral do livro:
  1. A Descoberta da Ilha
    ICAP
    Natal em Cuba
    O Hotel "Habana Libre"
    A Reforma Turística
    Há americanos que amam Cuba
    Intermezzo petrolífero
  2. A Aparição de Fidel
    A oratória de Fidel
    Poesia e Revolução
  3. A Revolução Exportada
  4. A Reforma Agrária
  5. Reforma Urbana e outras Reformas
    A Reforma Industrial
    A Reforma Educacional
    A Reforma Sanitária
  6. Final Brasileiro
  7. Conclusão
  8. Apêndice

Livro: Viagem à Ilha Proibida

Terminada a fase de programação da viagem vamos lendo/relendo livros sobre Cuba. Desta feita a obra de Ignácio de Loyola Brandão: "Cuba de Fidel - Viagem à Ilha Proibida".
Pequeno grande livro que em 119 páginas (formato de bolso) descreve a experiência vivida pelo autor nos anos 1970 (a primeira edição do livro é de 1978) quando foi a Cuba participar como jurado do Premio Casa de la Américas.
Ignácio de Loyola relata sucintamente o interessante episódio mencionado por Josina Albuquerque em seu livro "Viver em Cuba", e que transcrevo abaixo:...
"Há um brasileiro entre os heróis nacionais. Não sei o nome. Cito, porque o capítulo é de legendas. Este brasileiro, casado em 1964, era da Marinha. Seguiu para Cuba e como tinha suas qualidades foi comandar um navio. Em 1973, o navio do brasileiro estava ancorado no Chile, quando veio o golpe que derrubou Allende. A aviação, ao ver um navio com bandeira cubana, passou a bombardeá-lo. O capitão mandou acionar os motores a toda velocidade e partiu. Sem desatracar. Quer dizer, quando o navio saiu, arrancou um pedaço do porto. A aviação ainda perseguiu o barco, enquanto ele esteve em águas chilenas. Completamente adernado, fazendo água, quase afundando, o navio chegou a Havana. Os que viram e entendem de navegação comentam que não havia a mínima possibilidade de flutuação. E flutuou."
O índice do livro é, por si só, um estimulante à leitura e quase que uma resenha do texto:

Índice
  1. A revolução cubana. Como era o Brasil em 1959
    Os filmes de sucesso. Os livros mais lidos. O teatro. A política, Juscelino, Brasília, Carvalho Pinto, Brizola. A luta Dogomar Martines x Luisão. A juventude idolatrava Sartre. Dom Hélder lançou o plano de reforma agrária. A visita de Fidel ao Brasil.
  2. Penetro no habana libre
    Chegada a Havana. Primeiras visões da cidade. A sensação que começou a me perseguir. Os hotéis e seu funcionamento no atual regime. Os meninos que jogavam beisebol.
  3. Uma ilusão de ótica
    Uma constatação e um choque. A descoberta de uma ótica especial para se analisar Cuba, hoje.
  4. Um pouco de cuba antes de Fidel
    Síntese da história cubana, desde a sua descoberta. Lutas de Independência. Os ditadores corruptos. O início de Fidel Castro. A vitória dos barbudos.
  5. Luta contra "los incapturables"
    Aspectos da vida cotidiana. O dinheiro. O termo "companheiro". A igualdade. O cheiro da cidade. Os táxis mais curiosos do mundo
  6. Encontro inesperado
    Aliás, dois. A mulher misteriosa que seria uma constante. E o encontro emocionante com uma figura humana importante.
  7. Como estamos isolados
    Como funciona o júri do Premio Casa de las Américas. Constatação do isolamento brasileiro do panorama cultural da América Latina. Por que nos autodiscriminamos? E o boom? Como é visto por outros intelectuais? O que é a Casa de las Américas.
  8. Segunda visão da bela mulher
    Os insólitos turistas alemães. A Praça da Catedral na Havana Velha. Dois bares tradicionais. Receita de uma bebida típica. O que o povo faz aos sábados. Outra vez a mulher misteriosa.
  9. As velhas vão à missa aos domingos
    Como é Havana. Aspectos gerais das ruas. O povo. Os aristocratas que sobraram do velho regime. As mansões imponentes de um bairro proibido.
  10. Todo o povo discutiu a nova Constituição      
    Não houve uma só pessoa que não tivesse participado dos debates em torno da Constituição. Os aspectos curiosos de um regime que vive sob o princípio "de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo o seu trabalho".
  11. Por que o touro canadense estranhou as vacas cubanas?
    Mais cotidiano. Polícia. Viagem ao interior. Ausência de miséria. A medicina. O episódio da Baía dos Porcos: derrota dos norte-americanos. Energia elétrica. Leite e queijos. A incrível e poética história de um touro que abalou o país. Os acampamentos camponeses (se Dom Hélder visse). A posição da Igreja Católica.
  12. Espectador passa a ator: o teatro atual
    Ao lado do teatro tradicional desenvolve-se um movimento de teatro coletivo. As peças surgem dos problemas do povo, pesquisados e levantados em regiões diversas. Camponeses assistem ao teatro pela primeira vez. Teatro deve ser divertimento ou tem função política?
  13. Retorno a Havana: the yankees came back  
    Cotidiano. Os americanos estão voltando a Cuba, só que não entendem bem as transformações. Como o regime aboliu a gorjeta.
  14. A palavra como fuzil: música cubana hoje
    Passeio em Havana, domingo à tarde. As Casas de Trova. Outro encontro com a bela e misteriosa mulher. A Nova Trova canta para Chico mostrando o que é a música em termos de atualidade revolucionária. Letras de músicas. Como vive um ídolo popular.
  15. Usted es el último?
    Mais cotidiano. As ruas, lojas, o povo. Os sorvetes. Preços dos produtos. Cerveja. O racionamento. O que é difícil encontrar. As farmácias. Cigarros. As filas, uma instituição.
  16. Os salários e seu poder aquisitivo
    Análise comparativa entre o salário mínimo e o máximo. O que se pode comprar com eles. Preços de produtos básicos que não aumentam há mais de dez anos.
  17. A luta da mulher pela igualdade
    A mulher antes da Revolução. O trabalho para "emancipá-la". As escolas, os novos empregos. As leis de proteção. O machismo. Por que poucas mulheres são eleitas ou ocupam cargos de direção. Diferença entre a luta da mulher cubana e as reivindicações feministas da sociedade capitalista.
  18. Uma lagosta em essência de café
    Um dos melhores restaurantes do mundo está em Havana. Aqui está um roteiro de restaurantes, pratos (com receitas), bebidas. Fidel, o gourmet.
  19. Cinema: uma grande escola de documentários
    Os cubanos não são bons apenas em documentários. O esquema estrutural de exibição, produção. Todo mundo trabalha assalariado. Não há vedetes. O cinemóvel, o cine-lancha, o cine-mulo.
  20. Qual o papel do escritor cubano?
    O programa do Ministério da Cultura. Os talleres para formar escritores. Livrarias. O que se lê. Preços de livros. Tiragens. Os premiados de 78 na Casa de las Américas. Descoberta da identidade da mulher misteriosa. O que é um escritor? A literatura acabará dirigida em Cuba?
  21. O último encontro: Ernest Hemingway
    Visita a Finca Vigia, onde o autor de "O Velho e o Mar" viveu vinte anos. A casa, o parque, a piscina. Como Hemingway se instalou em Cuba, o que ele pensava de Fidel.
  22. Pequenas dúvidas que não cheguei a entender
    Perguntas que ficaram sem resposta sobre o regime. A juventude e seus caminhos. A presença na África. A má qualidade gráfica da imprensa. O perigo que o isolamento traz. O moralismo. Histórias pitorescas.
  23. E Fidel?
    Um fenómeno telúrico, disse um jovem. Sua vida, o mito, a dialética e didática dos seus discursos. Sua figura, tiques, manias.

Livro: Viver em Cuba - Uma Experiência Inesquecível

Viver em Cuba Uma Experiência Inesquecível
Livro escrito por Josina Maria Albuquerque, que, em apenas 98 páginas, descreve sua experiência durante 14 anos de exílio em Cuba após a implantação da ditadura militar em 1964 no Brasil.
Na sua estada em Cuba Josina teve uma rica experiência: participou do trabalho voluntário no corte de cana; foi professora no Instituto Pedagógico Makarenko; recebeu o diploma de mérito "Trabalhador Excelente"; trabalhou como intérprete; foi integrante do CDR (Comitê de Defesa da Revolução) e da Federação de Mulheres Cubanas; foi Assessora Nacional no Ministério de Educação tendo organizado o primeiro programa de Moral Socialista. Dos 14 anos dedicou 10 ao trabalho com Educação. Nelson Werneck Sodré, ao apresentar o livro destacou:
"Muitos livros sobre Cuba foram escritos e provavelmente outros serão escritos ainda. O livro da professora Josina, entretanto, distingue-se claramente dos demais. Os depoimentos das pessoas que, tendo conhecido a experiência cubana, no início ou depois, sentiram-se compelidos a falar sobre ela, foram muitos e variados, a começar pelo de Sartre, para mencionar o autor mais notório. Acontece que o livro de Josina se diferencia dos demais por uma característica de muita importância: todos os outros, entre os quais há excelentes depoimentos, todos ficaram marcados pelo fato de que os seus autores viram a revolução cubana por fora. Isto é, depois de  alguns dias de permanência na Ilha, percorrendo-a e vendo as realizações da revolução ali, esses autores apresentaram os seus depoimentos, alguns com um rigor interessante, outros com o tom apologético logo perceptível.
O caso do livro de Josina é diferente: é o depoimento de quem viveu em Cuba, de quem, portanto, viu a revolução por dentro. De quem, superiormente, conheceu todos os problemas ali ocorridos e, mais que isso, de quem os sofreu. Ninguém, que eu conheça, escreveu um depoimento sobre Cuba com tais características. A experiência humana e prática da autora não encontra, realmente, paralelo. Trata-se de alguém que viu tudo e que, como razão suprema, sabia ver. Na verdade, ela teve "uma experiência inesquecível", porque foi uma daquelas pessoas que, tendo sido ali acolhida, ajudou, na medida das suas possibilidades, a construir o edifício.
Creio que todos deveriam ler esse livro. Nada melhor do que esta afirmação define, o seu valor: é um livro muito importante. Não pode deixar de ser lido."

A situação atual de Cuba e suas perspectivas

Na principal conferência do 17º Encontro Nacional de Solidariedade a Cuba, realizada neste mês de março em Oaxaca, México, o intelectual cubano Fernando Martínez Heredia falou sobre a situação atual de Cuba e suas perspectivas, e explicou as mudanças que estão sendo realizadas na ilha caribenha, ressaltando a vigência dos princípios da Revolução e seus objetivos socialistas. Leia a íntegra da declaração a seguir:

"Antes de tudo, quero expressar meu agradecimento aos organizadores que tanto trabalharam para que se tornasse realidade este belo 17º Encontro Nacional de Solidariedade com Cuba e aos habitantes de Oaxaca que tanto contribuíram para isso. Quero saudar as mexicanas e os mexicanos que vieram de tantos lugares do país, meus compatriotas da Embaixada e do Instituto Cubano de Amizade com os Povos. E saudar a presença do companheiro embaixador de Cuba, Manuel Aguilera de la Paz, das autoridades e das personalidades sociais e políticas que aqui se reuniram. O Encontro constitui mais um passo à frente da solidariedade entre os povos, qualidade humana que cresce, e que é um anúncio do porvir que a humanidade terá que conquistar.

A chave geral do tema que devo abordar hoje está, para Cuba como para a maioria dos povos, na existência do colonialismo, do neocolonialismo e dos grupos de exploradores e dominantes que em muitos países são seus cúmplices e aliados, e está nas resistências e rebeldias dos oprimidos contra o sistema de dominação que o capitalismo tem desenvolvido e que se erigiu na América desde há cinco séculos.

Esse processo histórico tem sido a causa do chamado subdesenvolvimento, do mau governo como regra nesses países e de todas as agressões que os imperialistas consideram “necessárias” contra resistentes e rebeldes. O bloqueio e as agressões sistemáticas dos Estados Unidos contra Cuba libertada são um exemplo dessa característica. Não posso então deixar de situar no início da minha palestra que a situação cubana guarda uma estreita relação com a existência e os atos do capitalismo imperialista.

As raízes da situação atual de Cuba remontam à solução revolucionária dada pela insurreição triunfante em 1959 à necessidade de destruir o sistema de exploração, dominação e opressão que vigorava no país, ao mesmo tempo que a dominação estrangeira. De 1959 em diante, a Revolução formou os atores das mudanças colossais que sucederam, levou a cabo essas mudanças, assegurou a permanência e a força de um poder revolucionário, e conquistou profundas transformações das pessoas e das relações sociais.

O povo tem sido e continua sendo o protagonista dos fatos, é a expressão social dos seres humanos que crescem e é um conceito central. O poder revolucionário é sua maior criação e sua natureza e atuação constituem a via e a garantia das conquistas fundamentais e da permanência da Revolução. Sempre tem sido indispensável que o poder seja muito forte, mas nunca esqueçamos que este poder tem dois traços característicos fundamentais: a) é fruto dos instrumentos e das grandes jornadas da Revolução, como o Exército Rebelde, a revolução agrária, a alfabetização, o controle total sobre a economia nacional e o armamento geral do povo; e b) guia-se por um projeto de libertação que nos transcende e governa a todos. Por isso, é um poder popular revolucionário. A economia, como as demais dimensões da sociedade cubana, se rege por: bem-estar da maioria; planos socialistas de viabilidade das relações sociais econômicas; e uma estratégia nacional de país soberano.

Essas são as bases intangíveis da Cuba atual. É imprescindível partir delas para comprendê-la, utilizá-las como conceitos reitores e como bússola das análises que façamos da situação e das perspectivas.

Ao examinar a situação atual não os cansarei com muitos dados. Existe uma boa disponibilidade deles nos meios digitais cubanos, e também em publicações periódicas e alguns livros valiosos.

A grande crise dos anos 1990 foi a variante cubana do curso de dois processos: o final sem êxito dos esforços e ideais de desenvolvimento do Terceiro Mundo que tinham preenchido a segunda metade do século 20; e o início pelo grande capital de uma recolonização seletiva em escala mundial. Como nós, cubanos, somos os donos de nosso país, seguimos governando nossas relações internacionais, mas como somos “subdesenvolvidos”, nos confrontamos com muitas variáveis que estão fora de nosso controle. Uma consequência foi a perda das relações econômicas com a URSS e alguns de seus aliados, nas quais tínhamos baseado a maior parte da reprodução material e o sistema econômico. Foi um golpe tremendo para um país como Cuba, porém o mais impressionante é que apesar de confluírem no tempo dois processos tão adversos, incluída a unipolaridade, a nova sociedade e o poder cubanos não caíram.

Um aspecto importante do campo ideológico totalitário imperialista sobre a maior parte da informação e formação da opinião pública que se consome cotidianamente é a decisão de quais temas existem e são divulgados, quais são seus dados, como se devem entender e que opinião deve ter a grande maioria, que é reduzida a um público consumidor. Do mesmo modo, se manipulam os que não lhes são convenientes, com campanhas de mentiras e distorções, e se decreta o desaparecimento de outros temas, cada vez que lhes é possível fazê-lo. Por isso, durante décadas vigorou um sistema de mentiras acerca da suposta incapacidade de Cuba de valer-se por si mesma, um alimento típico da condição colonizada que eles necessitam impor às mentes e aos corações. Mas diante das realidades da resistência vitoriosa de Cuba nos anos 1990, esse sistema foi retirado em silêncio, sem que os imperialistas se tenham visto obrigados a reconhecer que mentiram com tanto entusiasmo e contumácia. A última forma referida, o controle ideológico com o emprego do silêncio midiático, é a que se emprega contra os cinco heróis cubanos presos nos Estados Unidos desde há quase quatorze anos, e por isso é tão importante a solidariedade mundial dos que exigem sua libertação, que ao mesmo tempo que se mobilizam e se tornam mais conscientes lutando por uma causa justa, denunciam a máquina criminosa que pretende unir a sua insondável maldade à capacidade de extirpar o altruismo, a capacidade de pensar e as qualidades humanas das maiorias do mundo.

Nós, que estamos conscientes e nos opomos ao sistema poderoso de mentiras, temos o dever de ajudar a estender e aprofundar essa consciência, a que ela seja assumida por tantas pessoas modestas que ainda são enganadas e manipuladas por aquele poder.

Os três desafios destes últimos vinte anos em Cuba têm sido: conseguir a sobrevivência; conseguir a viabilidade econômica; qual será finalmente a natureza do regime que tem vindo a emergir da crise dos anos 1990. No momento mais agudo da crise, foram decisivos três saberes populares: devemos defender sem concessões a soberanía, defender a justiça social, e o poder revolucionário é o verdadeiro defensor de ambas.

Tiramos muito proveito da conjuntura tão difícil e arriscada que vivemos há vinte anos. Então ficou claro o que não é socialismo, a necessidade de confiar sobretudo em nossos princípios, convicções e forças próprias, e como foi acertado manter e desenvolver o socialismo cubano.

Nas duas últimas décadas se produziram mudanças grandes e importantes. A crise e algumas das medidas aplicadas para enfrentá-la, implicaram retrocessos com respeito à nova sociedade e a seus projetos. Mas a estratégia geral e a maior parte das medidas e a vontade revolucionária foram positivas e foram decisivas. A unidade política do povo e deste com seu poder é o fator principal da esfera política. O poder político da Revolução se manteve incólume e controla a economia nacional e suas relações internacionais. A estratégia e as ações principais são dirigidas ou controladas por esse poder. A utilização dos recursos se rege pela política revolucionária. Os serviços sociais básicos do socialismo cubano se mantêm, apesar das dificuldades de tipo diverso que enfrentam, e constituem ao mesmo tempo uma de suas representações ideais fundamentais. A redistribuição sistemática da riqueza a favor das maiorias continua, portanto, sendo fundamental. Luta-se por manter as oportunidades para todos como uma tendência principal, mediante diferentes iniciativas e instrumentos impulsionados e controlados pelo Estado.

Passo agora a referir-me a elementos importantes da situação atual e às medidas em curso, sem pretender tratar todos nem entrar em detalhes, o que seria impossível aqui. Minha intenção é ilustrar com essas referências o momento em que estamos e contribuir modestamente aos trabalhos deste Encontro de Solidariedade.

A dimensão econômica da sociedade está no centro da atividade, nas preocupações, normas e outras medidas e nos debates cubanos atuais. Tem-se empreendido uma profunda reorganização da formação econômica, que afeta de algum modo a todos e recebe a atenção prioritária da máxima direção do país, do Partido, do Estado, das organizações sociais e dos meios de comunicação. Desde as magnas reuniões do Partido e da Assembleia Nacional do Poder Popular até as das bases das instituições locais – um exercício democrático sistemático que abrange todo o país –, em todos esses âmbitos as diretivas são examinadas, assim como as opiniões e os problemas. A população inteira vive envolvida de um modo ou outro nesta conjuntura.

No período recente, 150 mil agricultores receberam em usufruto quase 1,4 milhão de hectares. Foram eliminadas instâncias estatais na distribuição de produtos agrícolas e facilitadas as vendas diretas. Estimula-se a produção e a comercialização de alimentos em escala local e se dão facilidades de compra de equipamentos e outros implementos aos agricultores particulares.

O número de trabalhadores por conta própria aumentou a 350 mil, mais do dobro de quando se ampliou a possibilidade de se tornar um trabalhador dessa caategoria, há um ano e meio. As formas de emprego não estatal se ampliam com as cooperativas e o arrendamento dos locais em numerosos ofícios e serviços urbanos. A força de trabalho não estatal, que foi uma proporção ínfima durante mais de 30 anos, cresce e se espera que alcance 40% do total em 2015. Foram reduzidas as proibições e taxações e o imposto avança como instrumento de captação de receita pelo Estado no caso desses trabalhadores. Em alguma medida são concedidos créditos aos novos pequenos empresários e se dão subsídios a pessoas de baixas rendas para reparar suas habitações. Autorizou-se a compra e venda entre particulares de casas e automóveis de uso.

Avança-se nas mudanças no sistema de empresas. Os chamados esquemas “fechados” de financiamento permitem um acesso descentralizado e mais fluido ao dinheiro que se necessita para custear investimentos e a produção. Entre outras áreas, funcionam na indústria médico-farmacéutica, na produção petrolífera, na agroindústria açucareira, nas aerolíneas, no turismo e no tabaco. A ideia geral é permitir às empresas mais autoridade e controle sobre suas atividades e sobre uma parte de seus lucros, ao mesmo tempo que se exige delas dar prioridade a investimentos que possam ser amortizados e resultar em lucros a curto prazo.

Ainda que com fortes dificuldades e obstáculos, se avança na desconcentração que fortalece as instâncias locais e espera-se de seu desenvolvimento um dinamismo e uma multiplicação de forças. Já há experiências em curso de separação clara de funções e se pretende aumentar o controle de províncias e municípios sobre empresas públicas de seus territórios.

Os resultados econômicos são muito variados. Há setores agrícolas que crescem em suas produções, enquanto outros não cumprem seus planos. Foram incrementadas as vendas ao exterior de níquel, combustíveis, açúcar e tabaco, com preços mais favoráveis. Também cresce o turismo. A exportação de serviços de alto valor agregado é uma fonte muito sólida de receitas para o país. As remesas enviadas a seus familiares por cubanos que vivem no exterior constituem uma importante fonte de divisas. Mantém-se uma tendência positiva ao equilíbrio fiscal, relacionada com poupanças obtidas em alguns setores, maiores aportes de diversos ramos, crescimento das receitas com impostos ao setor privado e à circulação. Mas os subsídios para enfrentar perdas do setor empresarial continuam sendo uma carga pesada.

Se vamos mais além da relação de fatos acerca das mudanças econômicas em curso, poderíamos sintetizar várias características gerais:

  1. A posição firme da máxima direção do país quanto a manter o rumo socialista diante de qualquer disjuntiva, que se comunica a todos e preside o que se executa;
  2. A capacidade e o poder que tem essa máxima direção sobre as decisões políticas e econômicas e sobre os recursos e sua atribuição;
  3. Os ideais e a ideologia socialista e de defesa da soberania nacional que mantém uma grande parte da população. Em muitos é explícita, em outros é tácita, mediante sua identificação com a maneira de viver socialista e com a pátria; 
  4. A política social revolucionária que continua sendo aplicada e recebendo os recursos necessários e os princípios que a regem; 
  5. A centralização pelo poder revolucionário do controle dos recursos, da propriedade ou o domínio sobre as grandes e médias empresas, sobre o investimento, a macroeconomia e seus planos.

Na situação atual, a estratégia do país e suas táticas estão condicionadas pelo caráter limitado de suas forças e por numerosos fatores externos.

Predomina a estratégia de:

  1. manter e desenvolver polos de produção e serviços capazes de operar bem, reger-se por normas e controles, obter bons rendimentos e atrair investimentos, para exportar e para resolver necessidades nacionais; 
  2. importar alimentos e outros bens necessários à população, a preços muito altos;
  3. reduzir importações, seja pelo nível do comércio ou da produção nacional;
  4. aumentar a produção nacional, buscando como alavanca principal as transformações da política para com o setor agropecuário;
  5. redistribuir paulatinamente a força de trabalho, evitando o desemprego em massa e ao mesmo tempo erros por precipitação;
  6. aumentar as micro e pequenas empresas privadas que ofereçam serviços e bens para o consumo interno, e em alguma medida para turistas;
  7. impulsionar outras medidas para dar mais espaço às atividades econômicas privadas;
  8. investimentos e uma atuação enérgica em obras de infraestrutura que são importantes para o desenvolvimento do país.

As relações econômicas internacionais são controladas totalmente pelo Estado ou seus órgãos. A direção do país conduz as relações com contrapartes preferenciais, como Venezuela, China, Brasil e outros países. Cuba mantém relações econômicas com toda a América Latina. Algumas empresas e negócios conjuntos têm uma grande envergadura, como a refinaria de Cienfuegos e a área portuária e industrial de Mariel; a extração de petróleo no norte da ilha começa a se tornar realidade. Estas relações econômicas guardam fortes ligações com o conjunto da política exterior cubana, que tem uma atividade e um prestígio muito superiores às dimensões do país, e que combina muito bem seu rigoroso apego aos princípios com a flexibilidade, a capacidade de negociação e a presença em inumeráveis terrenos.

Como tem reiterado o companheiro Raúl, foram e serão feitas as modificações legais que sejam necessárias, mas há uma fronteira: o sistema socialista é intocável. Mecanismos de regulação como os impostos e o pagamento da Seguridade Social, entre outros, servem para conter as lógicas de desigualdade que geram as altas rendas de alguns segmentos da sociedade. O essencial é que ninguém fique desamparado, que todos permaneçam dentro do sistema de justiça social que possamos garantir, e que as rendas, não importa quanto, sejam somente fruto do trabalho honrado.

O presidente denunciou a corrupção administrativa como um inimigo principal da Revolução e impulsionou uma campanha decidida de enfrentamento contra ela, que utiliza todos os instrumentos da legalidade e não se detém diante do nível dos que sejam culpados. Como fez Fidel ao longo de nosso processo, Raúl denuncia os que pretendem formar grupos no seio do próprio aparato estatal, que acumulam riquezas e esperam a partir de suas posições um eventual regresso ao capitalismo.

O trabalho consciente sobre o Estado e o mercado é fundamental para a transição socialista, e deve ser divulgado, somar esforços e iniciativas, convertê-lo em uma tarefa prioritária que terá que durar muitos anos. É um dos aspectos principais da Revolução. Ainda são insuficientes os esclarecimentos e os debates acerca do que é desejável, permissível ou inevitável em cada momento do processo, e por conseguinte o que se deve impedir, criticar ou denunciar.

Os Lineamentos aprovados no 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC) deixam claro que devem prevalecer a distribuição socialista, a empresa como unidade fundamental e a planificação. Mas na prática pesa muito o pragmatismo. O socialismo entendido somente como a distribuição justa da riqueza social é insuficiente, mas fez aportes maravilhosos a favor das maiorias, primeiro a partir das grandes medidas e leis, depois através de sua sistematização na segunda e terceira décadas da Revolução. As pessoas, as famílias e as comunidades melhoraram radicalmente suas vidas e suas relações, e conseguiram mudar em muitos aspectos positivos. Se bem que não foi possível assegurar um desenvolvimento econômico totalmente autônomo, produziu-se um desenvolvimento econômico muito notável e, sobretudo, uma modificação radical da economia e de seus objetivos. Isso não sucedeu pela aplicação da norma de “a cada um segundo seu trabalho”. Foi porque a grande maioria trabalhou e se esforçou como cubanas e cubanos. Assim se obtiveram e se distribuíram as conquistas, os bens e as oportunidades, e isto foi um avanço humano e social imenso, diante da situação terrível a que o capitalismo submete as maiorias onde domina.

Não podemos esperar que se obtenha a eficiência econômica mediante as supostas leis cegas que ela mesmo porta, nem pelo auge do “senso comum” ou por virtudes da iniciativa privada postas a serviço do socialismo, como seria, por exemplo, o império sem regulações da chamada relação entre a oferta e a demanda. É necessário varrer a ineficiência, o burocratismo e a inércia e desenvolver as motivações e a capacidade de utilizar bem os esforços a partir do tipo de sociedade que temos criado. “Advirto que toda resistência burocrática ao estrito cumprimento dos acordos do Congreso (…) será inútil”, disse Raúl na Assembleia Nacional em agosto passado.

Na atualidade se desenvolve em Cuba uma situação complexa, em que convivem os dessemelhantes em paralelo. Entre outras mudanças, a obtenção de rendas e a satisfação de necessidades e desejos se tornaram mais diretas do que nas décadas anteriores, nas quais as agências sociais eram as mediações principais. Também cresceu o papel do fator internacional na vida econômica pessoal e familiar de muitos, através de remessas, missões, turismo, trabalho em “firmas” ou venda de serviços.

A grande insuficiência do socialismo que existiu em escala mundial é que não conseguiu ainda acumular forças culturais suficientes a seu favor, eficazes e atrativas na luta contra o capitalismo e sobretudo para o combate pelas transformações libertadoras das pessoas, das relações interpessoais e sociais, e novas relações com a natureza. Enquanto isso, o capitalismo chegou a um beco sem saída, por sua própria natureza atual, que é excludente para as maiorias, parasitária na economia, colonialista, antidemocrática, militarista, agressiva e depredadora do planeta. Mas o capitalismo segue obtendo um imenso proveito do modelo cultural em escala mundial que desenvolveu e das enormes forças e conhecimentos com que conta. Com estes move contra todos os povos, incluindo o nosso, uma formidável guerra cultural, mediante a qual aspira a converter-se no controlador de todo o horizonte da vida cotidiana, da realização pessoal e da convivência social.

Como sucede em todo país que tem um poder revolucionário e realiza uma transição socialista, em Cuba existe uma luta permanente entre as relações e os valores do socialismo e as relações e os valores do capitalismo. Mas, além do poder revolucionário e da decisão popular de defender nosso tipo de sociedade, em Cuba funciona uma extraordinária existência pacífica, desde a pessoa e as famílias até as comunidades e a nação. Esta é uma das maiores conquistas da Revolução, ainda que quase nunca se fale dela, e está na base de um fato que é crucial: em Cuba não há pleitos políticos. Existe, sim, uma grande luta cultural entre as relações e os valores de ambas as maneiras de viver e sentir, e essa luta indica os lugares da disjuntiva e as tensões que marcam a vida dos cubanos na atualidade e diante do futuro previsível. No curso das duas últimas décadas, o capitalismo tem recebido reforços, mas o socialismo se sabe e se sente superior como forma de vida humana, e mantém seu predomínio no essencial.

O imperialismo norte-americano, por sua parte, não relaxou nunca, durante mais de meio século, em seu desígnio de destruir a Revolução cubana e voltar a dominar nossa pátria. Houve e há matizes e diferenças táticas entre eles, é natural; mas seu denominador comum é ditado por sua natureza criminosa: destruir a sociedade que estamos criando; reimplantar o capitalismo; neocolonizar-nos; e apagar nosso exemplo, que temem tanto, porque é tão subversivo para sua ordem. É necessário manter o conhecimento dos modos atuais de operar que o imperialismo utiliza contra Cuba, com suas novidades que querem ser sutis e sua velha soberba, sua imoralidade e sua entranha reacionária. Permitam-me citar um intelectual cubano que teve que conviver anos com eles para servir melhor à Revolução, e se converteu em um herói: Raúl Antonio Capote, que foi o agente Pablo para a CIA, mas era Daniel para seus irmãos cubanos. Diz, em seu livro Inimigo, que acaba de ser publicado em Cuba: “A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos da América elaborou um complexo plano de subversão político-ideológica, dirigido a converter os jovens cubanos em inimigos da Revolução. Para conseguir seus objetivos investiram enormes recursos humanos e materiais.”

A tarefa cubana é difícil, nós, cubanos, estamos conscientes disso e o governo revolucionário dá passos paulatinos para enfrentar os problemas, ao mesmo tempo que preserva o valor supremo, que é a conservação do caráter socialista do processo. O companheiro Raúl tem reiterado a necessidade de que a população opine livremente e se contraponham critérios, a fim de encontrar os melhores caminhos e obter os consensos imprescindíveis para que seja a participação de um povo revolucionário nas decisões o fator que garanta a multiplicação dos esforços e das conquistas, a criatividade e também os sacrifícios, e que essa união organize e viabilize a força necessária para vencer os obstáculos e triunfar. Não esquecemos que há muitos defeitos acumulados, que fecham o caminho à satisfação dessas necessidades. A essência mesma do problema está pedindo que sejam debatidos a fundo os problemas centrais da concepção revolucionária socialista, não em torno de qualquer sucedâneo fugaz ou perigoso, mas na e para a revolução socialista, e depois de seus objetivos mais transdendentes.

Diante das duras carências de recursos materiais, é meridianamente claro que o fator subjetivo tem que ser o determinante na transição socialista cubana. Seria criminoso não utilizar o imenso potencial que o país acumulou no campo dos conhecimentos, do manejo das técnicas, da politização, da consciência, da cultura do povo. O número e a qualidade de pessoas capazes e conscientes é superior aos demais recursos disponíveis, mas sua utilização efetiva constitui ainda uma fração do que se espera: entraves enormes e muitas vezes absurdos o impedem. Se conseguimos viabilizar a utilização de nossas forças, poderemos aumentar sensivelmente a produção, os serviços, a eficiência, o bom governo, a resolução dos problemas, o enfrentamento das carências, e otimizar o emprego dos recursos com que contamos.

Não é necessário nenhum recurso material para ser solidário e fraterno, para aprender a não viver do esforço alheio e de costas ao que o país necessita. Exigir laboriosidade e retribuir o trabalho são duas tarefas que podem ser feitas a partir de posições muito diferentes, inclusive opostas. O capitalismo experimentou todos os usos da coação e do dinheiro para conseguir que as maiorias trabalhem com eficácia, e também todas as suas combinações, em beneficio de seu lucro e do poder da burguesia. A transição socialista – e isso Che explicou muito bem em O socialismo e o homem em Cuba – tem pontos de partida muito diferentes para fazer cumprir essas exigências sociais, porque seus objetivos são opostos, e ao mesmo tempo diferentes. O socialismo utiliza o salário e outras categorias provenientes do capitalismo, mas não se submete a elas. E jamais deve utilizá-las sem a segurança que lhe dá o comando que exerce o poder popular revolucionário sobre a economia.

As aprendizagens do mundo do trabalho e da eficiência em Cuba estão tratando de articular-se intimamente com as da educação das crianças e dos jovens, com a formação moral de todos; por exemplo, para quê trabalhar, por que devemos servir aos demais como nos servem, como a produção de bens e serviços é um requisito indispensável para manter e fazer avançar a justiça social. Trabalhamos para conseguir que os meios de comunicação social estejam realmente a favor da formação socialista e prestem esse serviço ao povo, que o meio político seja o veículo eficaz da participação popular e se plasme uma união de governo e serviço, um lugar em que sejam bem-vindas as iniciativas e as criações. A economia e a política são demasiado importantes para que o povo não participe decisivamente em suas decisões.

A batalha cubana atual tem uma importância trascendental. Outra vez se joga aí uma parte do destino deste continente. Nos lares cubanos é cotidiana a referência ao familiar que está cumprindo alguma missão de trabalho solidário em outro país da América Latina e do Caribe, porque são dezenas de milhares. Em Cuba, nas atividades e organizações estudantis as cubanas e os cubanos compartilham com mais de trinta mil estudantes não cubanos, que em sua grande maioria são latino-americanos. Na contenda das imagens, que é crucial no enfrentamento cultural mundial entre o imperialismo e os povos, vemos as pessoas de baixo, os mais humildes do continente, explicando como vivem e resistem, e como agora se mobilizam e têm esperanças. As pessoas em Cuba estão pendentes do que ocorre em todos os países irmãos, do Rio Bravo à Patagônia. Vivem com emoção as lutas populares e os processos populares da Venezuela, Bolívia ou Equador.

Nosso país desempenha um papel muito notável na nova etapa que se abriu na América Latina, e pode fazê-lo pela grandeza da revolução que soube resistir impávida sem ceder seus princípios, formar um povo com qualidades, capacidades e consciência política incomparavelmente superiores a seus meios materiais, e mudar a vida e a sociedade no sentido da libertação, do bem-estar e da dignidade. O exemplo que Cuba deu aos povos colonizados e oprimidos do mundo é excepcional, e seu prestígio lhe dá um lugar privilegiado de potência moral, mas também conta com forças palpáveis que são capazes de atuar a favor dos humildes deste continente de maneira eficaz – como são suas contribuições na saúde e na educação –, e de atuar politicamente a favor das alianças de poderes revolucionários e as concertações daqueles que reclamam autodeterminação para seus países e avanços na distribuição da riqueza social para seus povos.

As grandes revoluções contraem enormes obrigações. José Martí intitulou “A alma da revolução e o dever de Cuba na América” um artigo seu que publicou por motivo do terceiro aniversário da fundação do Partido Revolucionário Cubano. Não me referirei à lição extraordinária de teoria para a praxis desde o anticolonialismo que nos deixou naquelas poucas páginas, dedicadas às tarefas sumamente complexas que sempre carregam as revoluções. Limito-me a citar umas frases suas: “É preciso prever, e marchar com o mundo (…) Um erro em Cuba é um erro na América, é um erro na humanidade moderna. Quem se levanta hoje com Cuba, se levanta para todos os tempos (…) a independência de Cuba e Porto Rico não é só o único meio de assegurar o bem-estar decoroso do homem livre no trabalho justo aos habitantes de ambas as ilhas, mas o acontecimento histórico indispensável para salvar a independência ameaçada das Antilhas livres, a independência ameaçada da América livre, e a dignidade da república norte-americana”. Aquele artigo foi publicado em um 17 de abril. Nessa mesma data, 67 anos depois, a força do povo e o poder revolucionário, já unidos em Cuba, foi combater em Girón a invasão dirigida pelos Estados Unidos, e obteve a primeira vitória do socialismo na América. No 13º aniversário, em 1974, Fidel disse: “Depois de Girón, todos os governos da América Latina foram um pouco mais livres”. Trinta e oito anos depois, podemos parafraseá-lo, dizendo que a vitória do modo de vida socialista em Cuba contribuirá para tornar todos os povos da América Latina mais livres, mais socialistas.

Fonte: Cubadebate
Tradução por José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho

Cuba: Indicadores Econômicos e Sociais

Comparar alguns indicadores sociais de Cuba com o de outros países é algo que nos ajuda a "olhar" Cuba com outros olhos - fugindo das imagens distorcidas que são veiculadas pela mídia dominante.
Com este objetivo selecionamos informações relativas a oito países da América do Norte e da América Latina: 
  • Estados Unidos e Canadá (não poderiam ficar de fora pois são os representantes dos chamados "países do primeiro mundo" nas Américas e países oriundos de colonização britânica-francesa; 
  • Brasil e México, expressivos representantes dos chamados "países em desenvolvimento" ou "emergentes" sendo originários de colonização portuguesa e espanhola.
Mas um comparativo entre 4 gigantes em termos de economia, população e superfície territorial e uma pequena ilha, seria uma análise distorcida, portanto, adicionamos à amostra:
  • Guatemala (população e superfície equivalentes às de Cuba) e
  • Guiana (superfície equivalente mas população bem inferior à de Cuba) mas que tem a peculiaridade de ser o único estado-membro da Commonwealth situado no continente sul-americano.
Um primeiro indicador é o tamanho da economia do país, expresso pelo Produto Interno Bruto:
Fonte dos dados: http://www.indexmundi.com/g/r.aspx?v=65&l=p
O gráfico indica que Cuba tem um PIB superior apenas à Guatemala e à Guiana, sendo superada - com ampla margem - pelo Canadá, México, Brasil e Estados Unidos, nessa ordem.
Era de se esperar que os países que, frente à Cuba, são potências econômicas, apresentassem indicadores sociais superiores aos indicadores cubanos, mas, como veremos a seguir, tal não se verifica.
Taxa de Mortalidade Neonatal
Fonte dos dados: Unicef
Cuba tem uma taxa inferior a todos os 6 países do comparativo.
[A taxa de mortalidade neonatal é o número de óbitos de crianças com menos de 28 dias de idade, observado durante um determinado período de tempo - normalmente, 1 ano civil -, referido ao número de nados vivos do mesmo período. Para facilitar a comparabilidade dos dados dos diferentes países esta taxa é habitualmente expressa em número de óbitos de crianças com menos de 28 dias de idade por 1000 nados vivos. Para a Estatística um nado-vivo é o produto da expulsão ou extração completa, relativamente ao corpo materno e independentemente da duração da gravidez, do produto de fecundação que, após esta separação, respire ou manifeste quaisquer outros sinais de vida.]

Um outro indicador importante é o RNBP:
[RNPB - Recém-nascidos de baixo peso ao nascer são considerados problemas de saúde pública pela associação com altas taxas de mortalidade e morbidade]
Também nesse indicador a situação de Cuba é superior à dos demais países do comparativo.

Um outro indicador importante é o Índice de Mortalidade Infantil. Segundo as Nações Unidas, a taxa mundial atual de mortalidade infantil é de 49,4.

Dispomos de dois comparativos: mortalidade menores de 1 ano e mortalidade menores de 5 anos:

No índice de mortalidade infantil para os menores de 1 ano, Cuba continua ganhando de todos os outros 6 países do comparativo.
[A taxa de mortalidade infantil é o número de mortes de crianças menores de um ano de idade em um determinado ano por 1.000 nascidos vivos no mesmo ano. Esta taxa é frequentemente utilizada como um indicador do nível de saúde de um país.]

Para o índice de mortalidade infantil para os menores de 5 anos, Cuba empata com o Canadá e ganha de todos os demais.

Expectativa de Vida
A expectativa de vida ao nascer é o número médio de anos que um grupo de indivíduos nascidos no mesmo ano pode esperar viver, se mantidas, desde o seu nascimento, as taxas de mortalidade observadas no ano de observação. A expectativa de vida no nascimento é também um indicador de qualidade de vida de um país, região ou localidade.  
Fonte dos dados: Unicef
Na expectativa de vida ao nascer, Cuba empata com os Estados Unidos e ganha de todos os outros países. Fica portanto a pergunta - que merece uma reflexão profunda e séria - como Cuba - uma pequena ilha, de economia de dimensões reduzidas, sujeita a um feroz bloqueio econômico e político por parte da maior potência imperialista - consegue ter indicadores sociais superiores ou no mínimo iguais a gigantes econômicos como Estados Unidos, Canadá, México e Brasil?